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08 abril 2020

O SÉCULO XX EM XEQUE: Uma breve discussão teórica


A virada do século XIX para o século XX foi sem dúvidas o momento de apreensão que começariam a perturbar a todos. Os países capitalistas do mundo ocidental até então eram vistos como grandes superpotências capazes de suas economias permanecerem intactas por muito tempo. No entanto, o século XX assinalou o declínio da civilização Ocidental deixando rastros irreversíveis ao longo da história.

O historiador Eric Hobsbawm, renomado por trazer uma nova visão crítica do século XX, descreve este século como mais terrível e veloz de todos, um século de guerras, de nascimento e fim de utopias de conhecimentos mais ao mesmo tempo de ignorâncias e medo. Em meio há esse caos de conceitos, a ciência histórica tomava certos rumos, deixando de lado a história dita oficial e se concentrando nas novas possibilidades de seu campo historiográfico. O século 20 na visão historiográfica viu modificar a naturalidade com que se lida com o conhecimento histórico entre uma confiança ilimitada na informação da fonte, pois, nesse mesmo período surge uma nova ferramenta: as fontes, que orientará no campo do historiador.

No entanto, para se discutir “o breve século XX” e seus efeito por todo o globo, é preciso voltarmos um pouco mais, onde as ideias e o medo da guerra ainda não faziam parte dos debates acalorados no meio político e no campo da História.

É na segunda metade do século XIX que as transformações assoladoras do século XX começaram a surgir. Uma serie de movimentos ocorridos principalmente na Europa, envolvendo vários grupos sociais distintos eclode a partir de 1848, tais movimentos ficaram conhecidos como “Primavera dos Povos”, Hobsbawm (2012, p. 35) nos diz que esses conflitos sociais, “a zona revolucionária era igualmente heterogênea. Executando-se na França, o que estava em jogo não era meramente o conteúdo político e social desses Estados, mas sua forma ou mesmo existência”.  Ou seja, o anseio de uma mudança vigorava em todas as atmosferas gerando assim, revoluções vitoriosas.
Com essas revoluções ganhando espaços significativos no mundo Europeu, torna-se o cenário ideal para gerar a 1º grande guerra. Na obra “A era dos impérios”, Hobsbawm (1988, p. 461), nos diz que, “a possibilidade de uma guerra generalizada na Europa fora, é claro, prevista, e preocupava não apenas os governos e as administrações, como também um público mais amplo”. Para o autor o fator condicionante pros acontecimentos de 1914 a 1918 (período da primeira guerra mundial), foi a exploração do desenvolvimento Europeu em outros países da América e da África, a construção de grandes impérios, a briga por territórios, isso inclui a disputa dos Alemães por Colônias, tornando-se um equilíbrio delicado entre as potências Europeias.
Tal período de antecedência à primeira grande guerra, foi o momento também que emergiu na Europa diferentes doutrinas sociais tais como o socialismo, comunismo e o fortalecimento do capitalismo.  Marx e Engels acreditavam que os socialistas deveriam criar um partido político para educar os trabalhadores, fazendo-os conhecer os princípios do socialismo científico para poder pensar por contra própria e de maneira própria. Assim, a disputa por territórios seria também uma disputa pra implantar as suas ideologias sociais nos países conquistados.
Ainda em “A era dos impérios”, Hobsbawm fala que esse período, foi de uma falsa guerra na qual as principais potências europeias viviam uma corrida armamentista sem, supostamente, a intenção de dar início a um conflito. Portanto, um período de "paz", mas em que todos estavam produzindo suas armas, era uma “corrida armamentista dos governos” (p. 469). Desde meados do século XIX, o nacionalismo exacerbado e o imperialismo foram os principais fatores que motivaram essa corrida e posteriormente que levou a eclodir à guerra.
A partilha das terras do continente africano e asiático, no período da “falsa paz”, gerou muitos desentendimentos entre as nações europeias. Enquanto os ingleses e franceses dominaram contentar com poucos territórios de baixo valor, “pois a Alemanha reivindicava territórios na África e o Japão em regiões da Ásia onde os alemães podiam viver” (FERRO, 1993, p. 78). Este descontentamento permaneceu até o começo do século XX e foi um dos motivos da guerra, pois estas duas nações queriam mais territórios para explorar, divulgando suas ideias sociais e aumentar seus recursos.
O cenário para guerra já estava posto, e o século XX tomava rumos, que segundo Hobsbawm, este século tem seu inicio em 1914 com a grande Guerra. “Gradualmente a Europa foi se dividindo em dois blocos opostos das grandes nações” (Hobsbawm 1988, p. 474), nisso resultou num conflito maior pelas disputas territoriais no globo.
Com isso o breve século XX vai tomando formas e presenciando mais uma vez uma outra grande guerra, a segunda guerra mundial, na qual todo esse período, na obra “A era dos Extremos” (1995), Hobsbawm chama este século de extremo, no que diz respeito à formação de diferentes ideologias extremadas surgidas no século XIX e caracterizando este período, cuja implementação por meio de ditaduras de diversas matizes políticas  e econômica, tais como; dos comunismo soviético e chinês aos militarismos repressores de extrema direita na América Latina, passando pelos totalitarismos nacionalistas do fascismo europeu e totalitarismo, mobilizaram assim, todo tipo de valores e pretextos para atingir variados e sanguinários objetivos, mas sempre gerando consequências políticas de alto para humanidade.
É nesse contexto que o mundo, a razão social chega no seu extremismo. Podemos fazer aqui referência ao documentário brasileiro de 1999, “Nós que aqui estamos, por vós esperamos” de Marcelo Masagão. Nesta produção, o diretor trabalha imagens do século XX e suas mudanças do mundo e do homem antes, durante e após as duas guerras, revoluções, golpes, ditaduras, movimentos e desenvolvimento tecnológico. O extremismo do século XX é bem desenvolvido neste documentário, o demonstrando que o mundo estava passando por um processo de ebulição, como que a qualquer momento viesse a ter um fim, e por outro lado, a ciência demonstrando que mundo poderia continuar com os diferentes avanços tecnológicos.
O documentário nos revela a vida de celebridades e de pessoas comuns a fim de levar ao telespectador a relevância social de cada indivíduo para a história, pois, aqui voltamos ao inicio do nosso debate, o fazer historiográfico e suas mudanças no século XX toma forma quando campo da história tradicional se desfaz, mostrando que cada homem também faz parte da história, desde os grandes à aqueles que permanecem nos bastidores.
De fato, o século XX foi o momento onde o homem demonstrou a sua força como também questionou os seus plenos poderes. A tecnologia, as ideologias, a política, a economia ficaram do avesso mostrando que tudo é transitório. Hobsbawm viveu o seu tempo, sobreviveu o século XX, e demonstrou que nesse período a concepção histórica é colocada em prática. Demonstrando também que o homem do século XXI ainda tem que muito que aprender com o século dos extremos, causas e consequências ainda surtem efeitos na nossa contemporaneidade.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FERRO, Marc. História da Segunda Guerra Mundial. Marc Ferro. – Ática S. A, 1993.
HOBSBAWM, Eric. A era do Capital. Eric Jr. Hobsbawm, tradução Sieni Maria Campos e Yolanda Steidel de Toledo. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2012.
________________. A era dos Extremos: O breve século XX.  Eric Jr. Hobsbawm. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
________________. A era dos Impérios. Eric Jr. Hobsbawm, tradução Sieni Maria Campos e Yolanda Steidel de Toledo. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

DOCUMENTÁRIO
NÓS que aqui estamos, por vós esperamos. Direção de Marcelo Masagão. Rio de Janeiro: RioFilmes, 1999. Documentário (73 minutos).

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