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07 abril 2020

O Monge, O Guerreiro e o Cavaleiro na obra "O Homem Medieval" de Jacques Le Goff


O livro “O Homem medieval” de autoria do historiador medievalista francês Jacques Le Goff, foi publicado em 1994, e trata-se de uma coletânea de artigos da antropologia medieval que reúne os mais respeitados e conceituados medievalistas da história onde debruçados ao longo de anos em pesquisas acerca do mundo do ocidente medieval, trabalharam conceitos e definições da vida do homem que viveu no período máximo do cristianismo, denominado por Idade Média.
A obra estar dividida em 10 partes, e analisa desde a importância do cristianismo na vida do camponês, do servo, do eclesiástico e da monarquia, até mesmo, os ritos ou atividades que cercavam o cotidiano medieval. São elementos importantes da idade média que configuraram e configuram até hoje o mundo cristão (e não cristão) ocidental que a obra trabalha ao longo de seus capítulos. Como práxis das escritas de medievalistas, o estudo do homem e sua mentalidade se fazem mais uma vez necessário, visto que ainda é uma complexidade discutir as ações humanas num período tão vasto da história.
Cabe ressaltar que, a Idade Média descrita na obra, não é apenas aquele contexto histórico fissurado em alguns eventos relevantes do período ou de nomes importantes da sociedade medieval. Os autores buscaram a todo o momento demonstrar e apresentar uma idade média vista pelo os símbolos importantes da época que configuraram toda aquela sociedade, surtindo efeitos até mesmo na chegada da modernidade.
No presente texto será resenhado apenas os dois primeiros capítulos da obra:  “Os Monges” por Giovanni Miccoli e “O guerreiro e o cavaleiro” por Franco Cardine. 

OS MONGES
No capítulo intitulado “Os Monges” a autora nos apresenta a pretensão dos monges ocidentais do mundo medieval à hegemonia social e sua mentalidade elitista. Ela começa traçando o perfil (ou perfis) dos diferentes comportamentos dos monges medievais. Em primeiro lugar, estão os clérigos e, mais em especial, chamados de monges, cuja função é a oração que os põe em ligação com o mundo divino e lhes dá um enorme poder espiritual na terra.
Para os medievais, o mundo era obra de um Deus sábio e lógico, distinto do próprio mundo. Por conseguinte, o mundo lhes aparecia como algo que pode ser conhecido pelo homem mediante a sua razão; não é um fantasma nem uma armadilha, mas também, é um mundo misterioso que devia ser observado com seus diversos cuidados. Os monges, segundo a autora seria detentores desses cuidados, pois, na visão deles foram os fundadores da igreja primitiva do cristianismo verdadeiro.
Apresentam-se como os únicos herdeiros autênticos da Igreja primitiva e descrevem as condições de vida dos homens segundo uma hierarquia de moralidade e de mérito no sentido da qual se colocam a eles próprios.  Vivendo mais sujeito a uma regra do que como homens comum, isolado e independente, o monge encarnava assim os ideais de obediência e disciplina. 


Sobre as regras vividas e seguidas por esses monges, cabe ressaltar as regras de São Bento (um dos principais monges e santos da Igreja Católica Romana) que a autora descreve com sutileza. Se baseava na oração e no trabalho, ambas as ações indispensáveis ao desenvolvimento religioso de um monge medieval. Com efeito, além da oração, São Bento ensina o valor e a sistematização do Trabalho. Imagina, assim, o seu discípulo como um operário cristão. O trabalho é essencial à identidade monástica, seja o manual, seja o intelectual, seja o artístico ou artesanal.
São esses primeiros símbolos que começam a dar sentido ao mundo medieval. O monge além de um ser um homem espiritual, detentor dos mistérios divinos, ele também é responsável por ensinar aos pequenos e simples homens comuns daquela sociedade a ideia da importância do trabalho, pois, esta ação era o que movimentou o medievo.
No decorrer da regra, São Bento ilustra as motivações do trabalho, onde este corresponde a um gênero de vida pobre, que exige a labuta pessoal para poder manter, o mesmo é serviço à comunidade e aos hóspedes, a exemplo do que fez Cristo. A oração é o fator importante que não deve faltar na vida de um monge,  o mesmo reza pela salvação dos outros homens, mas pretende adquirir acima de tudo a perfeição e a sua salvação pessoal.
O trabalho é desenvolvimento dos talentos que Deus entregou ao homem e cuja aplicação ele vai julgar. Trabalhar em comum é, para São Bento, um valor, tanto que os monges culpados de faltas graves são excomungados não só da oração e da refeição comunitárias, mas também do trabalho com os irmãos. Assim, nessas regras, o homem monge medieval, ia se moldando nos seus diferentes perfis arraigados no cristianismo. As regras de São Bento, portanto, formou os monges (e, consequentemente, a sociedade) no sentido da diligência e da disciplina do trabalho.
Outra análise que Miccoli destaca é a formação dos primeiros mosteiros medievais (século VI e VII) por quase toda a Europa. Esses mosteiros eram grandes casas na qual abrigava monges e monjas medievais, mantendo antigas tradições dos primórdios do cristianismo até o século XII, composto por dormitórios, refeitórios, cozinhas, e uma sala de enfermaria; era necessária também uma sala para a reunião dos monges, chamada “sala do capítulo”, nela se lia e meditava um capítulo da regra adotada. Havia também o jardim com seu espaço entre a igreja e as outras dependências.
É nos mosteiros medievais que surgem as primeiras e importantes bibliotecas do mundo, onde concentrava grandes obras do cristianismo ocidental, e também do judaísmo e islamismo. O monge tem uma relação, tanto com Deus como com o Diabo, de quem é a presa privilegiada. Perito nas agressões de Satanás, protege os outros homens do antigo inimigo. É igualmente um especialista da morte, através das necrologias que existem nos mosteiros e que constituem cadeias de oração pelos defuntos.
O monge era um conselheiro e um mediador, sobretudo dos grandes. E também um homem de cultura, um conservador da cultura clássica, um perito na leitura e na escrita, graças aos livros dos mosteiros, à biblioteca e oficina de cópia e decoração dos manuscritos, reunia em si o vigor intelectual e a exuberância emotiva e uma sabedoria da escrita que sabia exprimir e matizar sensações, desvios, subtis atenções e segredos. O mosteiro era o espaço que antecedia o paraíso e o monge era o mais habilitado para se tornar um santo.

O GUERREIRO E O CAVALEIRO


O segundo capitulo intitulado O guerreiro e o cavaleiro de Franco Cardine, analisa como o homem medieval tornou-se um importante cavaleiro para a sociedade do ocidente. O cavaleiro medieval é fruto do início das cruzadas que objetivava conquistar terras ocidentais como orientais, pois, tais objetivos também incluía a propagação da fé e do cristianismo católico aos povos judeus e bárbaros.
Responsáveis pela formação das forças militares de seu tempo, segundo Cardine, os cavaleiros medievais apareceram entre os integrantes da nobreza medieval e até mesmo do alto clero. Principes, duques, marqueses, como também monges e sacerdotes fizeram parte das cavalarias medievais. A princípio, além da origem nobiliárquica, um cavaleiro deveria ter treinamento e armas para ascender a tal condição. Em muitos casos, recebiam terras e direitos de cobrança para defenderem a propriedade de um senhor feudal. Ao longo do tempo, o alcance dessa prestigiada condição foi se cercando de maiores exigências.
O cavaleiro desempenhava um papel essencial na descoberta de novos territórios, sendo um protagonista da promoção de jovens para a cavalaria. A cristianização de antigos ritos bárbaros da entrega das armas cria um rito de passagem essencial para o jovem guerreiro: a investidura. No século XII, aconteceu o nascimento de uma nova cavalaria: a dos monges guerreiros das ordens militares. Como o monge, o cavaleiro era um herói da luta contra o demônio.
O cavaleiro torna-se um místico e a aventura cavaleiresca transforma-se na busca religiosa do Graal. O imaginário cavaleiresco, que perdurará até a época de Cristóvão Colombo, conquistador místico, apoia-se num fundo mítico-folclórico e nas miragens do Oriente. O imaginário cavaleiresco exprime-se na caça, nas lutas e guerras.
Nas situações de guerra, segundo o autor, os cavaleiros eram organizados em diferentes postos de batalha. Tão importante quanto a sua posição e habilidades, um cavaleiro não poderia sobreviver muito tempo em guerra sem que estivesse acompanhado de seu cavalo. Se a sua montaria fosse perdida, a morte era quase certa. Ao fim do período medieval, a formação dos exércitos nacionais e a introdução das armas de fogo foram enfraquecendo a imagem do cavaleiro, que passou a figurar as lendas de uma época. 
O que o autor também apresenta é a ideia construída aos cavaleiros medievais, estes, que eram importantes e fundamentais protetores de um território feudal - seja o castelo como a igreja - a imagem cavaleiresca sofreu significativas transformações ao longo do tempo, principalmente devido as guerras politicas e religiosas que o Ocidente enfrentava.

CONSIDERAÇÕES

Discutir a idade média sem mencionar figuras como os monges e os cavaleiros, é como excluir sujeitos importantes que deram sentido a história medieval, pois, estes grupos que surgiram ao longo desse período foram um dos mais responsáveis pela a formação do Ocidente, seja na defesa e propagação da fé como também na defesa do território ocidental.
O que percebemos ao longo destes dois capítulos é que os autores buscaram apresentar em seus escritos a mentalidade dos diferentes homens medievais e como as suas ações influenciaram  no decorrer dos séculos.
Os dois capítulos trabalham principalmente a complexidade dos “homens medievais”, pois não eram apenas “um homem”, mas vários. Seja no modo de vida, de crer e de sobreviver nessa época. É importante ressaltar, a maneira que os autores trabalham diferentes dignificados e signos trazidos ao longo do tempo pelo a sociedade  medieval. Para os autores medievalistas desses capítulos, o homem medieval é antes de tudo, um homem que viveu o seu tempo sem transcorrer um longínquo período da história, vivendo as experiências que lhe cabiam diariamente, tendo a fé como principio da razão.

REFERÊNCIAS

MICOLI, Giovanni. Os Monges. CARDINE, Franco. O guerreiro e o cavaleiro. In: LE GOFF, Jacques. O Homem Medieval. (Org.) Jacques Le Gof. Editora Presença, Lisboa, 1989.

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